O fechamento
prognático da mandíbula, isto é, a mandíbula
inferior ultrapassando a superior, e a rachadura que marca o lábio
superior, são imperativos básicos para uma boa expressão
de tipicidade. O comprimento do focinho tem de ser igual à metade
do comprimento do crânio, e a soma de ambas deve representar um terço
da medida do cachorro à cruz. O crânio ligeiramente curvado,
as orelhas implantadas altas e bem portadas e os lábios carnudos,
em particular o superior, que deve cobrir sempre os incisivos inferiores.
A pele da cabeça
nunca tem de resultar excedente, sem formar rugas excessivas na testa nem
papada no pescoço.
Os olhos atingem
uma importância primordial na correta expressão de tipicidade
da raça, que deve aparentar como se nos estivesse intrigado com
o que olha. São de inserção sub-frontal e de forma
esférica, de tamanho médio e escuros, ainda que brilhantes
e amigáveis, nem afundados nem saltados. Existe uma membrana protetora
que podemos apreciar com o olho aberto, tendo a borda inferior interna
denominada terceira pálpebra, que deve apresentar uma coloração
marrom escura.
A despigmentação
da terceira pálpebra, muito freqüente em exemplares marcados
(com branco), constitui um defeito menor que não influi na qualificação
recebida nas exposições de beleza, onde não poucos
campeões possuem esta pequena imperfeição.Os olhos
e o focinho devem achar-se rodeados de uma máscara intensamente
escura, não demasiado alta nem sombria, e muito menos pobre ou debilmente
pigmentada. As particulares características da cor dos olhos ou
a conformação das dentições estão representadas
nestes desenhos.
Sua construção:
uma mecânica perfeita

Sua principal
característica desenhada no quadrado aumenta as exigências
de perfeição ao mínimo detalhe para que o movimento
desta raça concebida como um galopador de grandes distâncias
sobre terrenos irregulares resulte do todo funcional. Desta maneira, o
grau de sincronização requerido entre todos os segmentos
de sua anatomia é muito maior do que o de outras raças construídas
fora do quadrado, com mais espaço disponível para imperfeições
no momento de expressar sua estrutura mediante o movimento. O trem posterior
proporciona o empuxo principal que impulsiona ao conjunto. A transmissão
deste empuxo vem dada pelo tronco, enquanto o trem anterior a amortece
e rentabiliza.
A cabeça
e o pescoço dirigem e guardam o equilíbrio do movimento.
Tudo isso deve vir representado por uma boa ossatura e musculatura bem
desenvolvida, seca e claramente definida sob o manto da pele.
Radiografando
a estrutura do Boxer, podemos observar que esse balanço perfeito
no conjunto de sua construção se baseia na igualdade de medidas
entre os seis diferentes segmentos que formam os eixos funcionais de seus
trens anterior e posterior. Ditas medidas não correspondem à
longitude exata dos ossos, senão às existentes entre os diferentes
pontos de flexão das articulações. (ver figura Eixos
funcionais). No trem anterior encontramos um ângulo escápulo-humeral
de 90 graus, formando outro de 45 com a horizontal. A correção
desta angulacão define a amplitude máxima de alcance para
este trem anterior, ligeiramente inferior à altura da cruz para
um exemplar bem construído.
O antebraço
é reto e perpendicular ao solo, seguindo-lhe um metacarpo curto
e ligeiramente inclinado, ainda que quase reto, que termina num pé
de gato de dedos bem presos, firmes e arqueados. Ainda que para um galopador
nato o pé de lebre e o metacarpo mais inclinado aumentam e braço
de alavanca e a velocidade devido a sua maior longitude, o metacarpo curto
do Boxer lhe proporciona um galope menos fatigoso, mais adequado para as
grandes distâncias que deve percorrer, ainda que sempre apresentando
uma pequena inclinação que amorteça a queda de cada
impulsão do posterior.
O pé
de gato, menor, é também mais adequado para terrenos irregulares
e menos propenso a fraturas e torceduras do que o pé de lebre com
metacarpo longo de outros galopadores como os Lebréis.
O tronco consta
de um tórax profundo (a metade da altura à cruz) e de boa
capacidade para albergar o coração e os pulmões que
correspondem a um atleta, servindo-se para isso de um costilhar bem arqueado,
nem plano nem atonelado. O rim é curto e potente, ainda que conservando
uma cintura atlética, sem oferecer por isso uma linha inferior agalgada.
Quanto à
linha superior, caracterizada por uma cruz destacada, também cabe
assinalar-se sua particularidade devida à ligeiríssima convexidade
de sua garupa e ao salto relativamente marcado que sua coluna apresenta
entre as vértebras do dorso e as cervicais, na zona da cruz. As
costas retas de pescoço a garupa, tão erroneamente idealizada,
constitui uma construção absolutamente irracional, muito
menos resistente, sem contar com os descompassos que pode provocar no anterior,
mais sensível às oscilações verticais, produto
do movimento; é uma estrutura fora de toda funcionalidade e que
jamais encontraremos num estado natural.
A possibilidade
de ação do trem posterior vem dada pela distância entre
o ponto de apoio de um membro flexionado com o pé situado diretamente
sob a protuberância do quadril e o ponto de apoio de um membro totalmente
estendido, justo antes de que os pés se levantem.
Nas exposições
de beleza, a espetacular e temperamental apresentação estática
do Boxer pode dissimular muitas de suas possíveis imperfeições
estruturais, mas no movimento, onde deve expressar a funcionalidade de
sua construção, nenhuma delas passará despercebida
para o olho experiente de um juiz especialista. O movimento do Boxer bem
construído abarca muito terreno em cada passada e oferece uma linha
superior impecavelmente firme.
Visto desde
diante e desde atrás, os membros se deslocam sobre os eixos formados
pelos pontos das articulações. À medida que a velocidade
aumenta, os ossos se acercam ao eixo médio do corpo, com o fim de
compensar os deslocamentos laterais produzidos; a semelhança do
que sucede quando pedalamos sobre uma bicicleta e queremos aumentar a velocidade.
(livre tradução
de Charles Grazziotin do texto obtido da revista "Todos os Cachorros",
de Alex Palacin) |