Adestramento Básico

Por Stefano Neves

Antes do início do trabalho, todo adestrador deverá passear com o cão durante o tempo necessário à consolidação do elo de amizade, entendendo e se fazendo entender pelo cão e aproveitando para estudar suas reações aos estímulos, explorando sutilmente através de brincadeiras e elogios as suas respostas, facilitando de modo positivo assim o estreitamento no relacionamento.
Devemos, quando possível, introduzir em sua memória alguns comandos como: Passear, Não e Aqui (além do brinquedo, o que certamente facilitará o processo de aprendizado). Em se tratando de filhotes, o colar deverá estar travado para não causar danos e traumas (pois nesta fase podemos predispô-lo ou não a determinadas reações). Se aplicarmos corretamente as técnicas, corretas, observando criteriosamente a boa condução comportamental do indivíduo, certamente obteremos êxito.

 O cão estando com toda extensão da guia livre e a vontade, o adestrador fará brincadeiras, levando-o de um lugar para outro, sempre brincando e incentivando, de modo a agradá-lo quando em sua companhia, introduzindo neste momento os comandos cabíveis. “Aqui”, chamando-o pelo nome e encurtando a guia, trazendo-o ao seu lado esquerdo, liberando - o novamente. Poderá utilizar um brinquedo, para que o cão possa também se familiar com objetos. Alguns cães pegarão espontaneamente o brinquedo lançado ao chão, poderá ser juntamente com o comando busca, o que facilitará muito no futuro, enquanto noutros teremos que introduzir o objeto em sua boca deixando-o à vontade para que brinque e passeie, a fim de acostumar-se com o mesmo.

 Brincando também com uma bolinha de tênis ou salsicha de cizal para desenvolver sua mordedura, sempre reforçado ao máximo o interesse por brinquedos. Neste momento devemos conhecê-lo bem, aproximando-o das pessoas e outros cães a fim de sociabilizar seu comportamento, e fazendo sua familiarização com tudo e com todos, evitando sempre que possível à ocorrência dos estímulos eliciadores e, quando estes surgirem, possa ser tomada uma atitude educativa, corrigindo a intenção e não a ação, de modo que não cause traumas ou dificulte o aprendizado pelo cão. Este seria um forte motivo para não liberarmos o animal sem guia, sem ter total domínio, pois poderia investir contra uma pessoa ou outro animal qualquer, ou até mesmo contra seu condutor.

Senta

 Este exercício foi introduzido na memória do cão, na fase anterior, e agora iremos aperfeiçoá-lo com as devidas técnicas.
Com o cão a sua esquerda, a mão esquerda irá ao trem posterior (garupa) do animal, formando uma pinça com o polegar e o indicador, direcionando para baixo e para dentro (quando o cão sentar aberto). A mão direita auxiliará puxando com a guia para cima e para a direita, pronunciando o comando “Senta”. Agradando ininterruptamente, subindo e descendo lentamente a mão pelo seu dorso acariciando para acalmá-lo e conscientiza-lo que aquela é a situação mais agradável que existe para ele  (obs:corrigir a posição da cauda, se este possuir), e mantê-lo no local, deixando o mesmo nesta posição por algum tempo. Se houver resistência pelo animal comandaremos “Não”, afim de corrigi-lo, comandando novamente o “Senta”, efetuando todos os procedimentos acima até que não crie mais resistência e execute o exercício corretamente, ganhando recompensas que lhe proporcionem felicidade imediata, e assim, sempre que a situação permitir, instintivamente execute o exercício.
 Quando, numa fase seguinte, o adestrador fizer alto, o cão terá que sentar automaticamente.

Junto

 A correção o será executada da seguinte forma: o colar ajustado ao pescoço do cão, a guia numa posição que de conforto e mobilidade ao adestrador, este tracionará suavemente com a mão direita para cima, para frente, para direita, a mão esquerda fará carícias no maxilar do cão, emitirá o comando de voz “Junto”, convidando-o a executar, tudo simultaneamente. Evitar que o cão venha a forçar a garganta, em qualquer direção, devendo o adestrador utilizar de sua criatividade e percepção afim de contornar respostas indesejadas, sem, contudo, causar danos ao aprendizado do cão.
 Já confirmado o elo de amizade, e conseguido introduzir os primeiros comandos: "Não”, “Passear”, e “Aqui”, e ainda, sabendo sentar, que durante o período de amizade funcionou como aproximação para atrair o animal até o condutor, deverá ser desencadeado o processo de ensinamento deste novo exercício. Marcar um ponto de partida com o cão ao seu lado esquerdo - uma convenção o internacional - colar ajustado a seu pescoço, traçará uma reta imaginária, rompendo sempre com a perna esquerda. Primeiramente andará em linha reta, auxílios de voz e carinhos para que o cão se condicione a acompanhá-lo. Se atrasar dará um leve golpe na guia para frente; sempre com passos curtos e vivos, demonstrando dinâmica (o cão tem impulso ao movimento), se adiantar, pode-se quebrar a trajetória, de maneira brusca para a direita, e ainda, um leve golpe de guia para junto de si, de modo que o cão entenda que quando se adiantar, correrá o risco de não acompanhar a trajetória de deslocamento de seu dono. Ao se afastar, pode-se utilizar o mesmo procedimento. No início do deslocamento, com a saída da posição básica, com a perna esquerda, comando de voz e ainda, nas mudanças de direção. Vale lembrar que o cão sempre deverá executar o exercício com satisfação.
Com a evolução do aprendizado, pode-se variar o circuito, com deslocamentos em zigue-zague, quadrados a esquerda e direita, círculos, trotes, meia volta, ao som de ruídos diversos, etc.
Sempre ao fazer alto, o cão deverá sentar automaticamente, conforme aprendera anteriormente.

Fica (estímulo neutro)

 Sendo estímulo neutro, o cão de fato não saberá de sua existência, mas existe, pois o animal deverá permanecer em seu lugar, ou na última posição, sendo reforçado pelo comando a que se quer obter uma resposta, ocorrendo o emparelhamento e posterior anulação de estímulos. A grosso modo, não seria o ideal, mas é muito usual, introduzirmos o comando e depois o extinguimos. (vide psicologia), em síntese, o cão só sairá para acompanhar seu dono se este sair com a perna esquerda.
 Partindo do exercício sugerido, o adestrador ensinará o cão a ficar, passando a guia à mão esquerda, a mão direita espalmada, voltada para a trufa do cão, tencionando a guia levemente acima da cabeça do cão (em movimento simultâneo), sairá lentamente com a perna direita, bloqueando a frente, se for o caso, para que o animal não o acompanhe, utilizando o comando do último exercício para reforçar a situação presente, se for o caso, para que permaneça na posição desejada; logo após retirará a perna esquerda, lentamente, reforçando o comando anterior e posicionando-se a sua frente, permanecendo por algum tempo; retornará ao lado direito do cão, dando-lhe recompensa. Repetirá quantas vezes for necessário, anulando e extinguindo os reforços do emparelhamento, aumentando a distância e posicionamento do adestrador (semicírculos à esquerda e direita).

Deita (Primeiro Método)

 Exercício de submissão. Para melhor postura do cão neste exercício, o adestrador deverá observar a posição da cauda e de seu posterior antes que o execute, tomando cuidado para que o cão não caia para os lados, além da altura de sua cabeça, que não deverá ficar apoiada ao solo (a posição ideal é a de esfinge).
O Cão estando em “Senta”, o condutor com o pulso esquerdo através da alça da guia, sairá à frente do animal, postando-se de cócoras a sua frente; segurará com a mão esquerda pelo antetraço direito do mesmo, juntamente com a guia (a guia e o mosquetão não devem ser obstáculos para o animal), e com a mão direita o ante traço esquerdo, puxando - os levemente para baixo e para frente, simultaneamente comandando “Deita”, mantendo-o ali por alguns instantes e dando-lhe os devidos agrados, acalmando-o para que se sinta confortável neste exercício. Após algumas repetições, vem o condicionamento. Para completar o exercício, o condutor levantará lentamente, utilizará uma porção razoável da guia, executando semicírculos a direita e a esquerda, sempre visualizando o mesmo; quando preciso, reforçando o comando de deitar, retomando ao seu lado direito, e comandando “Senta”, utilizando algum estímulo sonoro, evitando que seja utilizado um estímulo negativo (golpe de guia), esta parte do exercício pode ser introduzida no exercício “senta”, dependendo do cão.
Uma vez condicionado este exercício, o adestrador introduzirá o gesto, tanto para o exercício deita, quanto para o exercício senta, sendo que, após efetuar o semicírculo, postar-se-á à frente do animal, segurará a guia na mão esquerda em toda sua extensão, o braço direito estará estendido com o dorso da mão para cima, na direção da face do animal e comandará “Deita” e simultaneamente gesticulará suavemente para baixo, até que execute de forma satisfatória, respeitando-se os limites e tempos de aprendizado do cão. Para a execução do “Senta” o adestrador deverá proceder de maneira inversa.

Deita (Segundo Método)

 O cão estará em “Senta”, à esquerda do adestrador com o colar ajustado em seu pescoço, à guia estará na mão direita, com a mão esquerda postada no suporte do mosquetão ou no colar, fazendo um gancho com o polegar envolvendo o colar, próximo ao pescoço, sairá com a perna direita à frente (nunca esquecer que a perna esquerda sai simultaneamente com o comando “Junto”), evitando que o animal não saia da posição nem rasteje a frente, pressionará a mão esquerda, que está sobre o colar, para baixo e para frente, simultaneamente flexionará as pernas e comandará “Deita”, até que o animal execute o movimento, cuidando para que não fique com a cabeça abaixada, se houver resistência por parte do animal, corrigirá com “Não” e reforçando o comando de “Deita”, continuando o movimento até que o execute corretamente sem resistência, quando irá recompensá-lo. Gradualmente irá tirar o reforço do comando, o auxílio no colar. Poderá acariciá-lo, acalmando-o e mantendo-o no local por alguns instantes. Em seguida o adestrador levantará lentamente, fará semicírculo, retornando ao lado direito do animal, agradando-o e recompensando-o.
O cão correspondendo a este exercício, o condutor fará todos os procedimentos acima, segurando a guia em toda sua extensão, introduzirá o gesto exatamente como foi explicado no primeiro método, onde fará também os semicírculos, aumentando estes até completá-los, passando por cima de seu dorso, tocando-o levemente com os pés para testar sua firmeza no exercício, quando posteriormente poderá facultar o uso da guia, sem que se abra mão de critérios básicos, como controle e segurança.
Obs: Existem outras formas de fazer com que o cão execute o exercício “deita”, estas outras formas serão demonstradas oportunamente, e praticadas individualmente pelos instrumentos, sem que sejam cobradas em verificação corrente ou final.

Aqui

 Este exercício tem uma função fundamental, é um exercício de amizade, pois está alicerçado como sendo uma das bases no convívio social entre ambos, onde o adestrador terá o total controle e domínio de seu cão (nesta fase devemos evitar correções severas), cão estará em “Senta” ou “Deita”, o adestrador se posicionará à frente do animal, segurará a guia na mão esquerda pela sua alça com as pernas afastadas lateralmente, podendo estar abaixado, chamando a sua atenção; indicará da maneira que melhor convier sua intenção, que o cão se aproxime com velocidade e alegria, sentando-se, quando for possível, a sua frente e, recompensando-o sempre, reforçando a atitude de sempre ao aproximar-se do condutor, será uma situação agradável...
 

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