Ser Cachorreiro
 

Quem é cachorreiro já nasce cachorreiro. 
É algum gene recessivo e misterioso que aparece numa criança 
de uma família onde, às vezes, só lá um ou outro gosta de cachorro.
O primeiro sintoma surge cedo, naquele dia em que a criança interrompe a paz de um almoço no lar e faz os pais engasgarem com o insólito pedido:

- Quero um cachorro!

Pronto, começou o inferno dos pais e do mini-cachorreiro. 
É logo levado às lojas de brinquedos e supermercados,
podendo escolher o que quiser, desde uma bicicleta 
até aquele carrinho cheio de luzes e sirenes.
Ganha o carrinho e mais um monte de presentes, 
para ver se esquece da idéia do cachorro.
Mas não tem jeito.

Ganha tartaruga, jabuti, periquito, canário e até um hamster,
mas nada disso satisfaz a ânsia de cachorreiro 
que já nasce em sua alma numa intensidade que assusta toda a família.

Se der sorte, ganha seu primeiro cachorro. 
Se não, vai ter mesmo que esperar crescer.

Aí, enfim, livre das amarras familiares, 
começa a mergulhar fundo na criação.
Vem a primeira fêmea, o sufoco do primeiro parto, 
o acompanhamento dos filhotes,
o medo da parvo, da corona e, assustado, resolve:

- Não fico com nenhum!

A ninhada cresce, começa a reconhecer o dono, 
a abanar o rabinho e pronto!
A decisão, antes inabalável, sofre o primeiro impacto. 
Daí a uns dias, a resolução já é outra:

- Não me desfaço das fêmeas; só saem os machos!

Começou sua longa jornada de cachorreiro através deste mundo-cão. 
Daí para frente, passa a vida trocando jornais, 
fazendo vigília ao lado das cadelas que estão para parir 
e tentando manter sob controle os buracos do jardim.

O cachorreiro vai se afastando do mundo dos homens e admite mesmo:
- Não gosto muito de gente...

Programa de cachorreiro é visitar ninhada dos outros, 
pegar cachorro no aeroporto,
levar às exposições ou pendurar-se no telefone para conversar 
com seus amigos cachorreiros...
sobre cachorros.

No começo, criar uma raça só já o satisfaz, 
mas logo dá aquela vontade de experimentar outra
e lá vai ele pela vida afora, em meio a muitas raças e muitos cães.

As compras de um cachorreiro também são diferentes 
das compras de um ser humano comum:
shampoos, cremes, óleos, gaiolas, enfeites... 
mas tudo para cachorro.
Se algum amigo viaja para o exterior e cai na asneira de perguntar:

"Quer que traga alguma coisa para você?”, 
recebe logo as mais estranhas encomendas:
máquina de tosa, lâminas, escovas, pentes... 
e tudo para cachorro.

Casa de cachorreiro é toda cheia de esquemas, 
Com um monte de grades aqui e ali, 
dividindo o quintal, protegendo portas e janelas. 
A decoração muitas vezes fica prejudicada
com a presença de gaiolas e caixas de transporte na sala e nos quartos.

Mas o cachorreiro não está nem aí e, 
como quem freqüenta casa de cachorreiro é cachorreiro também,
ninguém liga mesmo.

O carro do cachorreiro também não pode ser qualquer um. 
De preferência um utilitário com bastante espaço interno 
para caberem os cachorros e as tralhas todas nos dias de exposição. 
Pêlos nos bancos e marcas de focinho nos vidros fazem parte.
Banco de passageiros não é tão necessário, mas o espaço é indispensável.

Cônjuge de cachorreiro tem que ser cachorreiro também, 
ou a união pode sofrer sérios abalos.
Quando chega aquela hora fatídica, no meio de um bate-boca, 
em que o outro dá o ultimato:
"Ou os cachorros ou eu!”,
o cachorreiro certamente vai optar pelos cachorros.

Velhice de cachorreiro é cheia de preocupações.
- Vou morrer, e quem vai cuidar dos meus cachorros?

Resolve, então, não criar mais nada 
e reza para que todos os seus cães partam antes dele,
mas o coração não agüenta e, dali a pouco, 
arranja outro filhote para cuidar, 
confiando na promessa de alguém que garante ficar com o cachorrinho
em caso de morte do cachorreiro.

E, como ser cachorreiro é 'padecer no Paraíso’, 
acredito que o bom Deus, na sua infinita misericórdia 
e eterna sabedoria, já tenha providenciado um céu só para os cachorreiros onde eles, junto com todos os seus cães e seus amigos cachorreiros possam, enfim, levar uma vida tranqüila e cheia de paz.

Mas, como muita tranqüilidade acaba ficando monótona, 
logo o cachorreiro fica espiando de longe o mundo dos homens, 
cheio de saudade, já pensando em voltar para cá 
e começar tudo de novo.

Cachorreiro outra vez!

Autor desconhecido, retirado do site www.ladypark.com.br

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